Autoconhecimento para dirigentes empresariais e a boa governança corporativa

“As mesmas coisas que desejamos evitar e esquecer revelam-se a ‘prima matéria’ da qual provém o verdadeiro crescimento.” Andrew Harvey

Por Américo Figueiredo – figueiredo.americo60@gmail.com

Professor de MBA e Certificate in Business Administration do Insper – Gestão de Pessoas, Conselheiro de empresas, e Mentor Executivo

Desde novembro último, tenho a honra de fazer parte do Comitê de Pessoas do IBGCInstituto Brasileiro de Governança Corporativa. Lá, temos discutido, com um grupo muito seleto de profissionais, como que a Gestão de Pessoas influencia na boa governança de modernas empresas no Brasil.

A julgar pela quantidade de normas editadas de compliance, decretos normativos pelos órgãos governamentais, regras de contabilidade e controles, pela divulgação, até de certa forma, extenuante, pela mídia, diariamente, de tantos casos de corrupção, desvios éticos, práticas escandalosas de benefícios a empresas nacionais, como a JBS, para citar uma das mais recentes, dentre outros absurdos que fazem parte da Operação Lava Jato, amplamente de domínio público, poderíamos indagar, o que deu errado? Por que, mesmo diante de tantos controles e regras, parece haver um tsunami de práticas antiéticas e desvios morais no Brasil? O que está acontecendo com a nossa sociedade ?

Tenho defendido a ideia da necessidade do autoconhecimento para dirigentes empresariais, visando a saúde psicológica da organização e, portanto, da sua sustentabilidade, segundo os pressupostos do triplo bottom line, que considera as seguintes dimensões: Pessoas, Planeta e Lucro.

Esse meu ponto de vista, encontra amparo em modernas publicações, que tratam sobre boas práticas de governança corporativa, que trazem luz à questão ao ponderar que, quem falham, não são as empresas mas, sim, os indivíduos que delas fazem parte. Portanto, mister incorporar considerações sobre a psicologia econômica.

 

O consagrado pesquisador americano Jim Collins, autor da famosa obra Como as gigantes caem, explica que o declínio das grandes empresas apresenta cinco estágios, a saber: o excesso de confiança proveniente do sucesso, a busca indisciplinada por mais, a negação de riscos e perigos, a luta desesperada pela salvação e a entrega resignada à irrelevância. Fica, portanto, evidente, a necessidade de se examinar as características e personalidade dos dirigentes, na ocorrência das falhas empresariais.

Segundo mencionado por Joaquim Rubens Fontes Filho, na recente obra Governança Corporativa e Integridade Empresarial – Dilemas e Desafios, organizada pelo IBGC, “o declínio da confiança pública nas corporações hoje, ameaça a legitimidade da atividade corporativa global “.  Segundo esse autor, fundamental seja considerar a natureza humana dos dirigentes empresariais, “materializada nos vieses de suas decisões “, dentre outros aspectos comportamentais.

É chegada a hora de se incorporar nas agendas dos Conselhos de Administração das empresas brasileiras, pondero, discussões sobre o autoconhecimento, a formação do ego dos indivíduos e suas implicações nas relações humanas e, sobretudo, no processo decisório. A psicologia moderna nos ajuda a entender que, a partir da formação do ego do indivíduo, podemos saber muitas coisas acerca da forma como ele vê o mundo, suas escolhas mais prováveis, seus valores, suas motivações, suas reações, seu comportamento em situações de stress, dentre outros atributos de comportamento e atitude.

Um dos poderosos instrumentos de autoconhecimento que tenho estudado e utilizado, em minha jornada de transformação pessoal, é o Eneagrama. O Enegrama nos convida a desvendar o mistério da nossa verdadeira identidade. Ele se destina a iniciar um processo de questionamento, que pode levar-nos a uma verdade mais profunda sobre nós e sobre nosso lugar no mundo. O objetivo maior do Eneagrama é nos ajudar a interromper as reações automáticas da nossa personalidade, comandadas pelo nosso ego, por meio da conscientização. Via de regra, nossa personalidade se vale de nossa capacidade inata de erguer defesas e compensações para o que nos magoou na infância.

Autoconhecimento realça que somos humanos;  paradoxal, a meu ver, um certo esgotamento do homo economicus diante da complexidade da sociedade moderna, cada vez mais a clamar pela inclusão e pelo respeito à vida, apesar dos incríveis avanços proporcionados pela tecnologia.

 

As mesmas coisas que desejamos evitar e esquecer revelam-se a ‘prima matéria’ da qual provém o verdadeiro crescimento.”

Andrew Harvey